top of page

60 obras de Arte e Cultura de ResistĂȘncia Ă  Ditadura Militar

  • Writer: Assessoria de Comunicação
    Assessoria de Comunicação
  • May 10, 2024
  • 16 min read


A ditadura militar brasileira (1964-1985) dispensou toda sorte de ataques às artes. Sob ordens dos generais-presidentes de plantão, agentes do regime censuraram e proibiram obras, perseguiram e torturaram artistas, destruíram espaços e equipamentos culturais, desmantelaram grupos, coletivos e movimentos artísticos, entre outras atrocidades.


HĂĄ tambĂ©m casos – nĂŁo poucos – de condenaçÔes de artistas ao cĂĄrcere e ao exĂ­lio.

Como todos nĂłs sabemos, o cerco Ă  cultura nĂŁo impediu a realização de obras de arte audaciosas e memorĂĄveis – muitas das quais confrontavam o prĂłprio regime, de forma aberta ou sutil. Com o projeto Arte e Cultura – 60 Obras de ResistĂȘncia Ă  Ditadura Militar, o movimento sindical presta uma homenagem a artistas e produçÔes que ajudaram a denunciar e combater o longo ciclo autoritĂĄrio. Nossa cultura revidou Ă  altura Ă s violaçÔes a que foi submetida.


“As vĂĄrias linguagens estĂ©ticas geradas no interior desse campo foram capazes de fundir diferentes horizontes de interpretação e criar narrativas e alegorias destinadas a opinar sobre o Brasil”, resume o relatĂłrio final da ComissĂŁo Nacional da Verdade.  “A histĂłria recente do paĂ­s atravessa todas essas obras que apresentam, em comum, alĂ©m de uma singular relação entre arte, polĂ­tica e histĂłria, uma inquietude estĂ©tica e experimental, um impulso criativo e crĂ­tico, uma nova visada artĂ­stica”.

Sob coordenação do Centro de MemĂłria Sindical (CMS) e com apoio das centrais UGT, Força Sindical e CTB, a seleção das 60 obras ficou sob a responsabilidade de seis jornalistas sindicais que tambĂ©m pesquisam a cultura brasileira: AndrĂ© Cintra, Andressa Schpallir, Carolina Maria Ruy, FĂĄbio Ramalho, Susana Buzeli e Val Gomes. Parte da equipe jĂĄ havia participado do projeto Brasil em 200 Obras (1822-2022) – BicentenĂĄrio da IndependĂȘncia.

Agora, nos 60 anos do Golpe de 1964, apresentamos 60 produçÔes nacionais emblemĂĄticas, que nos ajudam a questionar o que foi a mais longa e criminosa ditadura brasileira. Num livro de 1950, William Faulkner escreveu: “O passado nunca estĂĄ morto. Ele nem mesmo Ă© passado”. Se os fantasmas do regime militar continuam presentes no Brasil, nĂŁo Ă© o caso de esquecĂȘ-los ou ignorĂĄ-los – mas, sim, de enfrentĂĄ-los e vencĂȘ-los. Nesse sentido, as obras de arte podem ser as melhores inspiraçÔes.


Confira a lista completa das 60 obras comentadas


1.    1964 – Gritando, Roberto Magalhães – Artes Plásticas


Pintura premonitĂłria do terror que se instalaria no Brasil com o golpe militar.



Poucos dias após o golpe militar, o amazonense Thiago de Mello lançou de Santiago, no Chile, seu poema premonitório. Os 13 artigos-estrofes – sobre vida, liberdade e esperança – culminam no Artigo Final: “Fica proibido o uso da palavra liberdade, / a qual será suprimida dos dicionários / e do pñntano enganoso das bocas. / A partir deste instante / a liberdade será algo vivo e transparente”.



Frases (“NĂŁo entre Ă  esquerda”, “Conserve-se Ă  direita” e “Entre pelo cano”) e setas (a da esquerda indica os bairros paulistanos Liberdade, ParaĂ­so e Bela Vista) provocam posicionamento polĂ­tico e reflexĂŁo sobre as violaçÔes de direitos humanos no PaĂ­s.



A peça teatral Ă© uma obra clĂĄssica da dramaturgia brasileira, que aborda temas como liberdade, opressĂŁo, resistĂȘncia e justiça social, situando-se em um contexto histĂłrico de luta contra a tirania e a opressĂŁo. A trama gira em torno da busca pela liberdade individual e coletiva, destacando a importĂąncia da resistĂȘncia e da luta por direitos fundamentais.



A mĂșsica denuncia a pobreza e a misĂ©ria, as altas taxas de mortalidade e o descaso do poder pĂșblico com a saĂșde das crianças pobres dos morros do Rio de Janeiro na dĂ©cada de 60. É considerada uma canção de protesto pela forte crĂ­tica social e foi censurada pela ditadura militar.



Obra pop, de resistĂȘncia cultural contra o regime militar, se apropria de algo do cotidiano (placa de trĂąnsito) para indicar “conversĂŁo Ă  esquerda” e a explosĂŁo tĂ­pica das histĂłrias em quadrinhos, atravĂ©s da onomatopeia Buum!



Poema publicado na imprensa e endereçado ao ditador Castelo Branco. Drummond, um de nossos maiores poetas, sai em defesa de Nara Leão, expoente da Bossa Nova, do Tropicalismo, da MPB e do histórico espetåculo Opinião. Por questionar a falta de liberdade no País, Nara Leão, como tantos outros artistas, também foi ameaçada de prisão pela ditadura.



A obra, que também antecipava os horrores da ditadura, retrata um militar repleto de medalhas, com cara de caveira, sem vida, sem alma, desumano.



É um livro que aborda um tema extremamente delicado e importante: a questĂŁo da tortura em contextos variados. O autor mergulha nas profundezas desse assunto complexo, trazendo Ă  tona relatos e reflexĂ”es sobre os impactos fĂ­sicos, psicolĂłgicos e sociais da prĂĄtica da tortura, tanto para os torturados quanto para os torturadores.



Repleta de referĂȘncias artĂ­sticas, Ă© a primeira montagem da peça de Oswald de Andrade, escrita em 1933 e publicada em 1937. Teatro crĂ­tico Ă s relaçÔes polĂ­tico-sociais baseadas nos interesses financeiros e na concentração de poder, de resistĂȘncia e contracultura diante de um sistema de censura, autoritarismo, conservadorismo, individualismo e injustiças.



Com letras gigantescas, a escultura Lute foi exposta no trĂąnsito do Rio de Janeiro para chamar o pĂșblico para a luta contra a ditadura.



E um filme icĂŽnico, um dos principais representantes do Cinema Novo, que foi lançado em 1967 durante um perĂ­odo da ditadura militar. O filme Ă© conhecido por sua abordagem polĂ­tica e sua crĂ­tica social, refletindo o clima de instabilidade e opressĂŁo vivido no paĂ­s na Ă©poca. A narrativa gira em torno de um intelectual que se vĂȘ envolvido em questĂ”es polĂ­ticas e revolucionĂĄrias, debatendo temas como poder, corrupção e resistĂȘncia.



Poucos autores foram mais perseguidos pela ditadura do que o “maldito” PlĂ­nio Marcos, que teve 18 peças censuradas. Com linguagem crua, suas obras jogam luzes sobre a marginĂĄlia – o submundo da sociedade. Sua obra-prima, Navalha na Carne, uma das primeiras peças a mostrar abertamente a homossexualidade, foi proibida por 13 anos. Navalha resistiu e tem versĂ”es para cinema, Ăłpera e HQs.



É um filme conhecido por sua abordagem crĂ­tica e provocativa em relação Ă  sociedade da Ă©poca e aos eventos polĂ­ticos que estavam ocorrendo. Jabor utilizou-se de uma linguagem cinematogrĂĄfica inovadora para expressar suas ideias e opiniĂ”es sobre a realidade brasileira sob o regime autoritĂĄrio, contribuindo para o debate pĂșblico e para a resistĂȘncia cultural da Ă©poca.



A mĂșsica foi a grande vencedora do 3Âș Festival de MĂșsica Popular Brasileira, em 1967, desbancando “Domingo no Parque”, “Roda Viva” e “Alegria, Alegria”. “Ponteio” traz referĂȘncias Ă  musicalidade nordestina, grande influĂȘncia nas obras de Edu Lobo no perĂ­odo. Tendo como personagem um violeiro, a letra de JosĂ© Carlos Capinan fala da violĂȘncia da Ă©poca, faz menção ao desejo de mudança e de novos tempos.



Escrita para a peça de teatro de mesmo nome e autor, tornou-se um dos sĂ­mbolos mais conhecidos da resistĂȘncia contra a ditadura. A peça chegou a ser alvo do Comando de Caça aos Comunistas em 07/1968 e foi censurada, o que reforçou seu carĂĄter combativo. A mĂșsica foi apresentada no Terceiro Festival de MĂșsica Popular Brasileira, da TV Record, classificando-se em terceiro lugar.



Uma grande provocação musical. Assim foi a apresentação da mĂșsica, intensamente vaiada no Festival Internacional da Canção, em 68. As roupas extravagantes, a dança erotizada e as guitarras elĂ©tricas nĂŁo foram bem aceitas. “Essa Ă© a juventude que diz que quer tomar o poder? Se forem em polĂ­tica como sĂŁo em estĂ©tica, estamos feitos”, afirmou em um manifesto contra a ditadura e contra a juventude “careta”.



Com imagem de um policial militar detendo um rapaz, esta obra visava denunciar as arbitrariedades pelas quais o Brasil passava. Chegou a ser confiscada na X Bienal de Arte de SĂŁo Paulo, de 1969, sĂł reaparecendo dias depois.



No Rio de Janeiro, em 21/06/1968, o fotógrafo Evandro Teixeira, em uma manifestação contra a ditadura registrou a imagem de um estudante caindo em frente à polícia. Segundo o jornal Folha de São Paulo, Teixeira lembra que: “O rapaz levou uma bordoada tão violenta que se desequilibrou e caiu, batendo a cabeça no meio-fio. Deu um berro horroroso e ficou lá se estrebuchando”. Ele diz acreditar que foi um dos 28 mortos naquele dia.

20. 1968 – Repressão outra vez: eis o saldo, Antonio Manuel – Artes Plásticas

O assassinato do estudante Edson LuĂ­s, em 1968, levou Ă  criação de RepressĂŁo Outra Vez, com colagens de manchetes e fotos de jornais para mostrar a repressĂŁo. “Garoto morto, morreu um estudante”, era a legenda. “Estes trabalhos, que sĂł podiam ser vistos quando o pĂșblico puxava o tecido negro que os cobria, tinham a intenção de velar e desvelar a violĂȘncia do perĂ­odo”, afirmou o artista.



Popularmente conhecida como “Caminhando”, a mĂșsica foi censura por incentivar a mobilização polĂ­tica de estudantes, trabalhadores e de toda a população civil. É uma mĂșsica pacifista que critica o armamento. Entrou para histĂłria como hino da resistĂȘncia nĂŁo sĂł pela letra, mas pelo tom grave e nostĂĄlgico.



O poema-bandeira homenageia o bandido Cara de Cavalo, uma das primeiras vĂ­timas da ditadura, em 1964. Acusado de matar um policial, foi jurado de morte e executado com cerca de cem tiros. A obra faz parte do movimento “MarginĂĄlia” – ou cultura marginal: uma arte experimental e fora dos padrĂ”es convencionais – e compĂŽs o cenĂĄrio de shows de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Os Mutantes.



A peça teatral apresenta uma trama envolvente e cheia de reviravoltas, que aborda questĂ”es sociais e polĂ­ticas de forma inteligente e satĂ­rica. É uma peça que leva o expectador a questionar as estruturas sociais e os valores da sociedade em que vivemos.


24. 1969 – Bienal do boicote: Boicote internacional contra a X Bienal de São Paulo, (encabeçada pelo crítico de arte) Mário Pedrosa – Performance.


Esse evento marcou um momento significativo na histĂłria da arte brasileira, com repercussĂ”es tanto no cenĂĄrio nacional quanto internacional. O boicote trouxe Ă  tona questĂ”es importantes relacionadas Ă  liberdade artĂ­stica, censura e posicionamento polĂ­tico no contexto da Ă©poca, destacando a resistĂȘncia cultural, a defesa dos direitos dos artistas e a promoção de um ambiente artĂ­stico mais plural e democrĂĄtico.



No SalĂŁo de BĂșssola, no Museu de Artes Moderna do Rio de Janeiro, Antonio Manuel expĂŽs trĂȘs peças “ambientais” com colchĂ”es de plĂĄstico transparente recheados de mato, incluindo a “cabine” Soy loco por ti com um mapa da AmĂ©rica Latina. A decomposição da folhagem durante a exposição gerou uma obra “viva” em referĂȘncia Ă  situação da AmĂ©rica Latina, com o tĂ­tulo inspirado em uma canção de Caetano Veloso.



Vencedora do 5Âș Festival de MPB da TV Record, quando o Brasil jĂĄ vivia sob a imposição do AI-5. O texto Ă© um diĂĄlogo coloquial entre dois amigos que nĂŁo se viam hĂĄ algum tempo, parados no sinal de trĂąnsito de uma cidade grande, externando pressa e seus dramas tĂ­picos da vida moderna. Canção gravada posteriormente por outros artistas, entre eles Chico Buarque, no antolĂłgico ĂĄlbum Sinal Fechado.



É uma peça teatral em que a histĂłria se passa em um bordel e aborda questĂ”es sociais e polĂ­ticas como a opressĂŁo das mulheres e a luta por liberdade e dignidade. A trama gira em torno de vĂĄrias personagens femininas que buscam sobreviver em um ambiente hostil e machista, destacando suas relaçÔes interpessoais e conflitos internos. A obra nĂŁo apenas choca e emociona, mas tambĂ©m levanta questionamentos sobre poder, exploração e resistĂȘncia, sendo uma peça que continua relevante atĂ© os dias atuais.



A canção Ă© uma despedida para o exĂ­lio e uma ressignificação das lembranças de Gil sobre o perĂ­odo em que ficou preso. “Aquele abraço” era a forma como os militares o cumprimentavam – de forma sarcĂĄstica – na prisĂŁo. Era tambĂ©m o bordĂŁo do comediante Lilico, que chegou a processĂĄ-lo por plĂĄgio. Gil embarcou para a Europa uma semana apĂłs o show de lançamento da mĂșsica.



Na obra o artista plástico luso-brasileiro lançou 14 trouxas ensanguentadas no córrego Ribeirão Arrudas, no Parque Municipal de Belo Horizonte, intervenção feita para expor o “desovamento” de corpos assassinados pelo “Esquadrão da Morte”. Cada “trouxa” significava um corpo torturado e morto pela ditadura.



A morte, a dor e a falta de liberdade foram temas centrais de inĂșmeras obras de denĂșncia e resistĂȘncia Ă  ditadura. Neste desenho, o artista retrata as suas digitais, o que seriam suas fotos 3×4, com nĂșmero de fichamento policial, uma cela aberta e o personagem sem camisa, com um coração vermelho no peito.



O vestido faz parte da coleção-protesto que a estilista Zuzu Angel apresentou na casa do cÎnsul brasileiro Lauro Soutello Alves, em Nova York, como forma de denunciar a ditadura no Brasil. Um canhão, um militar, um anjo, um sol atrås das grades bordados no vestido, falam da luta de Zuzu para encontrar o corpo do filho Stuart Angel (1946-1971), estudante e ativista morto pela ditadura.



Com a personagem GraĂșna, o cartunista Henfil conseguiu usar o humor para criticar a ditadura no auge do regime. É um dos seus personagens mais conhecidos. Junto com seus companheiros Zeferino e Orelana, expressava contrastes e estereĂłtipos de gĂȘnero e regionais, em um paĂ­s que se tornava mais urbano.



Canção imortalizada pelo grupo MPB4. Um verdadeiro hino de resistĂȘncia e de esperança na liberdade.



A mĂșsica faz referĂȘncia Ă  morte do estudante Edson LuĂ­s de Lima Souto, assassinado pela polĂ­cia durante um protesto no restaurante universitĂĄrio chamado Calabouço, no Rio de Janeiro, em 28/03/1968. A letra tambĂ©m faz um trocadilho entre Calabouço e Cala a Boca, sendo, desta forma, uma denĂșncia da censura e da repressĂŁo.



As capas brancas surgiram nos EUA como crĂ­tica Ă  mercantilização cultural. No Brasil, eram forma de protesto e resistĂȘncia contra a censura. “Chico Canta”, originalmente “Chico Canta Calabar”, trazia uma capa colorida, com o nome “Calabar” pixado em um muro, autoria de Regina Vater. Logo apĂłs o lançamento, foi censurado e republicado com alteraçÔes em vĂĄrias mĂșsicas e com a nova capa, branca



Chico e Gil compuseram a canção metafĂłrica para o Show Phono 73, da Phonogram – cada artista escreveu duas estrofes, em decassĂ­labos. A elas somaram, no refrĂŁo, a exortação de Jesus no Monte das Oliveiras antes de ser traĂ­do: “Pai, afasta de mim este cĂĄlice!”. Ainda que sutis, as denĂșncias das prisĂ”es e torturas Ă  margem da lei levaram a censura a proibir a mĂșsica, que sĂł foi liberada em 1978.



Poema escrito em Paris, contrapÔe as palavras dor, ódio e passado sombrio com as que revelam um lugar e um tempo de amor. Frei Tito Alencar Lima, torturado em 1969, por vårios dias, pelo regime militar, morreu em 1974.



ApĂłs ter letras censuradas pelo regime militar, o que inviabilizou um dueto com o mestre Dorival Caymmi, Milton Nascimento decidiu gravar as mĂșsicas em versĂ”es instrumentais, potencializando-as com experimentaçÔes sonoras, percussivas, vocais e gritos pela liberdade de expressĂŁo.



O dramaturgo Dias Gomes conseguiu subverter o status quo ao emplacar em uma grande emissora uma novela que era uma verdadeira såtira do autoritarismo na política brasileira. Odorico Paraguaçu, um demagogo e oportunista caricato, entrou para o imaginårio nacional na interpretação de Paulo Gracindo, transmitindo de forma popular e cÎmica, os interesses por trås da rigidez do regime.



Taiguara foi um dos artistas mais perseguidos pelo regime militar, com mais de 80 cançÔes vetadas pelos censores, inclusive as de amor. Nesta mĂșsica, as crianças cantando livres simbolizam a força da resistĂȘncia e um futuro onde os sonhos e a expressĂŁo nĂŁo sĂŁo mais cerceados.



Na vĂ­deo-performance, a artista costurou a sola do seu prĂłprio pĂ© com a frase “Made in Brazil”, expressĂŁo habitualmente encontrada em produtos e brinquedos. Por meio dessa ação simbĂłlica, LetĂ­cia abordava a dor de ser brasileira em um perĂ­odo de ditadura, refletindo sobre a submissĂŁo do paĂ­s ao mercado e Ă s influĂȘncias externas, utilizando a metĂĄfora da costura para simbolizar a ideia de que o Brasil estava sendo marcado e controlado por interesses externos, perdendo sua identidade e autonomia.



O livro de contos que narra a violĂȘncia de forma bruta e realista foi proibido pela censura um ano apĂłs sua publicação. ExpĂ”e de forma crua as mazelas sociais e denuncia o contraste entre classes no Brasil durante a ditadura. Sua censura tardia – na terceira edição – causou uma reformulação no Departamento de PolĂ­cia Federal, que ganhou mais recursos para o trabalho de repressĂŁo.



Uma das pinturas feitas pelo artista em homenagem a Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura. O contraste entre o metal de garfos e um amontoado de carne ensanguentada representa alegoricamente a violĂȘncia militar sobre o corpo dos presos polĂ­ticos e revela a verdadeira causa da morte de Herzog: a tortura.



A ditadura tentou esconder as circunstĂąncias da morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos porĂ”es do DOI-Codi, em SĂŁo Paulo. O ato ecumĂȘnico liderado por D. Paulo Evaristo Arns, Henry Sobel e Jaime Nelson Wright peitou o regime. Parte da sĂ©rie “InserçÔes”, a obra de Cildo Meireles, “carimbando” a nota de 1 cruzeiro, selou o pacto: a sociedade nĂŁo se calaria mais.


45. 1978 – Mobilização, Grupo Experimental de Dança – Dança


Dirigido por Lia Robatto, foi criado para a reinauguração do Teatro Castro Alves, em Salvador. Mais de cem artistas ocuparam 31 espaços cĂȘnicos espalhados pelo teatro. Pessoas amordaçadas empunhavam cartazes em branco, e a instalação de um ovo preso em uma gaiola representou a censura. O espetĂĄculo integrou dança, teatro, mĂșsica, artes plĂĄsticas, fotografia e cinema.



Álbum com as mĂșsicas gravadas no espetĂĄculo de 1973, organizado por Jards MacalĂ©, em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Entre uma mĂșsica e outra, Ivan Junqueira lia trechos da Declaração, sob aplausos do pĂșblico que identificava os direitos humanos que a ditadura militar no Brasil nĂŁo respeitava.



Cartaz produzido para arrecadar verba para a greve dos metalĂșrgicos de SĂŁo Bernardo do Campo em 1979, durante a onda de greves que impulsionou a retomada das açÔes em massa do movimento sindical.



A abertura “lenta, gradual e segura” da ditadura culminou na Anistia. Partindo da morte de Charles Chaplin, o “bĂȘbado com chapĂ©u coco”, a letra homenageia vĂ­timas da ditadura. O sociĂłlogo Herbert de Sousa, o Betinho, Ă© o “irmĂŁo do Henfil”. Os guerrilheiros Carlos Lamarca e Carlos Marighella aparecem pela imagem das viĂșvas (“Choram Marias e Clarices”). Um clĂĄssico!



Baseado na peça homĂŽnima, de 1958, de Gianfrancesco Guarnieri, o filme mostra a dificuldade enfrentada por sindicalistas metalĂșrgicos de SĂŁo Paulo em realizar uma greve apĂłs a campanha salarial de outubro de 1979. Revela os conflitos de posiçÔes dentro do prĂłprio movimento sindical e entre os trabalhadores.



Ao lado do cantor e compositor Renato Russo, Caio Fernando Abreu foi uma das Ășltimas grandes perdas no PaĂ­s em decorrĂȘncia da aids. Os dois, Caio e Renato, usaram licenças da arte para denunciar a opressĂŁo e o preconceito. Em Aqueles Dois, a desconfiança – sinĂ©doque da repressĂŁo velada da ditadura – se volta contra dois funcionĂĄrios de uma repartição pĂșblica reconhecida como um “deserto de almas”.



HĂĄ filmes que valem menos por suas virtudes artĂ­sticas e mais pelas polĂȘmicas que despertam. É o caso do longa de Roberto Farias – o primeiro no PaĂ­s a expor, de modo extremamente realista, a tortura nos porĂ”es do regime. E pior: a tortura contra um brasileiro inocente, confundido com um “subversivo”. A liberação do filme custou o cargo de Celso Amorim, entĂŁo presidente da Embrafilme.


52. 1982 – Feliz ano velho, Marcelo Rubens Paiva – Literatura


Marcelo poderia ter sido um adolescente de classe mĂ©dia como qualquer outro da dĂ©cada de 1970. Mas dois fatos alteram seu destino: o desaparecimento do pai, Rubens Paiva, “sumido” pela ditadura, e a perda dos movimentos do corpo (apĂłs um salto inconsequente numa lagoa rasa). Segundo ele, “o futuro Ă© uma quantidade infinita de incertezas”. Feliz Ano Velho foi o livro mais vendido nos anos ‘80.



Os anos 80 trouxeram a possibilidade de sonhar. Foi um perĂ­odo de transição para um futuro atĂ© entĂŁo incerto. Na instalação de Cildo, estilhaços de vidro cobrem o chĂŁo e lembram a tortura. Barreiras de arame farpado e grades remetem Ă  privação de liberdade. As diferentes transparĂȘncias permitem vislumbrar uma grande massa, sem forma definida, assim como a abertura democrĂĄtica que estava por vir.



Uma simples canção de amor que no movimento Diretas Jå! transformou-se em um hino pelo resgate da democracia, das eleiçÔes diretas e da liberdade política no Brasil.



Rita Lee foi uma compositora com muitas mĂșsicas censuradas pela ditadura militar. O disco Bombom foi todo barrado pelo regime dos generais-ditadores, proibido de ser tocado nas emissoras e de ser vendido para menores de 18 anos.



No inĂ­cio dos anos 1980, apĂłs dĂ©cadas de repressĂŁo, o sentimento de liberdade refletia-se na cultura e na mĂșsica, com destaque para o novo rock brasileiro e as cançÔes como “Pro Dia Nascer Feliz”, ponto alto da participação do BarĂŁo Vermelho no festival Rock in Rio, de 1985, em plena redemocratização do PaĂ­s.


57. 1984 – Nunca fomos tão felizes, Murilo Salles – Cinema

 


Durante muitos anos, este documentårio, lançado no fim do regime militar, foi um dos principais registros do golpe contra João Goulart. Mesmo que naquele ano as informaçÔes disponíveis fossem muito mais escassas que hoje, o cineasta Silvio Tendler conseguiu reunir e coordenar documentos, fotos e entrevistas, oferecendo uma versão fiel e que ao mesmo tempo denuncia este processo histórico.



Mais importante filme brasileiro de nĂŁo ficção, Cabra Marcado pĂŽs o PaĂ­s no mapa-mĂșndi dos documentĂĄrios. A proposta de Coutinho era reconstituir a saga do lĂ­der camponĂȘs JoĂŁo Pedro Teixeira. Com o golpe de 64, as filmagens sĂŁo interrompidas por 17 anos, e o projeto Ă© adaptado. Vira uma peça histĂłrica – um registro da resistĂȘncia Ă  ditadura, da memĂłria coletiva e do prĂłprio cinema.



Projeto desenvolvido clandestinamente entre 1979 e 1985, revelou neste livro (como obra de cultura e pesquisa) a extensão da repressão política no Brasil: perseguiçÔes, desaparecimentos, torturas e assassinatos. Portanto, os artistas brasileiros, com visão histórica, qualidade produtiva, sensibilidade social e humanismo sempre estiveram certos ao expressarem-se contra as atrocidades da ditadura.


SĂŁo Paulo, maio de 2024

Autores da seleção: André Cintra, Andressa Schpallir, Carolina Maria Ruy, Fabio Ramalho, Susana Buzeli e Val Gomes.

Apoio: Força Sindical, UGT, CTB – Realização: Centro de Memória Sindical

 
 
bottom of page